domingo, 27 de junho de 2010

Sobre mentiras e verdades






Cansei de varrer angústias para debaixo dos chavões. Não me importo de ser taxado de herege e que alguns divulguem que estou me desviando da fé evangélica. Não me incomoda mais o julgamento impiedoso e implacável dos que sobrevivem de certezas. Não estou mais disposto a repetir velhas fórmulas que não me fazem sentido nem oferecem abrigo para as almas amarrotadas pela dor. Não suporto mais a solidariedade das palavras vazias dos clichês religiosos e da teologia mais ocupada em defender a Deus do que em amar o próximo.

Não temo o caminho. A noite escura do silêncio e das dúvidas da alma não me apavora mais do que a infertilidade dos dogmas do dia claro. Tenho certeza de que minha trilha é percurso de vida. E tenho boas razões para crer assim.

Ando sobre as pegadas dos questionadores, dos inquietos, dos rebeldes, dos que não encontram descanso, sem qualquer temor de me perder no labirinto da complexidade da razão e dos descaminhos do coração, que “têm razões que a própria razão desconhece”.

O que não quero é ser contado entre os cínicos. Não me admito mais seguindo na fila indiana dos covardes. Jamais aceitarei a possibilidade da hipocrisia. Prefiro a verdade, a minha verdade, ainda que minha verdade seja mentira, pois mais vale apostar no que é verdade para a consciência, ainda que seja mentira, do que numa verdade estranha à consciência. A consciência vale mais que a verdade, pois somente na verdade relativa da consciência a verdade verdadeira poderá se impor sobre a mentira.

Caminho sem qualquer receio entre as verdades e mentiras das consciências humanas – a minha e a de todos os caminhantes. A Verdade em que creio não é uma idéia, é uma pessoa. Não tomo como definitivas as verdades das consciências, já que descanso na Verdade que é uma pessoa.

Minhas vísceras clamam pelo encontro com a pessoa que é a Verdade, e justamente por esta razão não posso conviver com quaisquer verdades que sejam estranhas à minha consciência. Relacionamentos não se baseiam em verdades, mas em integridade, autenticidade, transparência, sinceridade, mútua confiança. Prefiro estar errado sendo íntegro do que certo sendo falso. Você deve suspeitar que eu esteja enganado ou equivocado, mas pode acreditar que estou sendo honesto. Não me importo em descobrir que minha verdade é uma mentira. Mas jamais me relacionaria com você baseado em algo que para mim seja mentira somente porque para você é verdade.

Caso se importe, fique tranqüilo comigo. Creio na graça de Deus, que me interpela e me encontra. Creio no Espírito Santo de Deus, que me conduz a toda a verdade. Creio em Jesus, caminho, verdade e vida. Creio que sou amado pelo Pai, o Filho e o Espírito Santo com amor maior do que eu tenho por mim mesmo. Creio que o Deus Triuno me levará à luz da verdade verdadeira, desmascarando minhas mentiras. E creio que o caminho mais curto para a verdade verdadeira é a admissão de minhas verdades relativas. Antes de me levar à verdade verdadeira, certamente Deus me levará às minhas verdades relativas, quer para que sejam desmascaradas e se revelem mentira, quer para me revelar que não eram tão mentirosas assim.

Romanos 12.2
2Coríntios 13.8
Hebreus 4.12

Ed René Kivitz

AOS CRENTES MÁGICOS...






Uma das coisas que sempre me impressionaram na natureza humana é a nossa capacidade de criar qualquer realidade que desejemos; e, a seguir, projetá-la em alguém, em alguma coisa, em algum lugar ou indivíduo; ou ainda sobre uma instituição, seja ela de qual natureza for... — Para, então, entregarmo-nos à fantasia... Como se aquilo fosse a coisa mais real e genuína possível; até que depois de um tempo..., ao verificar que espinheiros não dão uva, saímos chorando, chocados, lamuriando contra Deus e a existência, sentindo-nos enganados; e tudo porque espinheiros dão espinhos e videiras dão uva, embora nós tenhamos teimado em plantar uma natureza e esperando ceifar a outra...

Assim, relembrando que espinheiros não dão uvas, digo:

Toda mentira adoece o mentiroso, e inicia nele uma doença na mente; a doença da fantasia armada e destrutiva; além de que faz dele um ser mau caráter, pois, toda falsificação da realidade é a própria criação do diabo no interior do inventor, do mentiroso...

Não existe boa traição. Toda traição é traição, ainda que seja do policial ao bandido; e a sua consequência é que todo traidor fica pior do que qualquer traído, por pior que ele seja; e mais: quanto melhor for o traído, pior ficará o traidor...

Não existe pai e mãe que mereçam ser desonrados. Quem desonra pai e mãe deflagra o mecanismo de autodestruição no ser... Por isto ele não será longevo na alma...

Não existe o lúcido adorador de ídolos... Quem adora a um ídolo fica sempre menor do que ele, até que nele se dissolva...

Ninguém cuja profissão existencial seja perseguir acabará a vida doce...

Quem dissimula com habilidade se torna o diabo de si mesmo para sempre...

Quem dá falso testemunho cria para si mesmo aquilo que falsamente testemunhou...

Todo aquele que julga e decide o destino de alguém, cria para si mesmo o padrão pelo qual Deus o julgará...

Quem entrega os tesouros de sua alma a alguém que não seja confiável, será devorado pelo suíno que receber tais preciosidades como dádivas de um insensato...

Quem não serve copos de água ao sedento jamais beberá da fonte da água da vida...

Quem nada dá a ninguém, esse nunca terá o que seja Graça de Deus...

Quem ama a morte é filho do inferno...

Quem odeia é sócio do diabo na destruição da vida; e com ele compartilhará o mesmo destino...

Quem trama o mal ficará louco e paranóico, e morrerá de suas próprias armadilhas...

Todo aquele que inveja se torna o mais feio dos homens...

O arrogante é o coveiro de sua própria sepultura...

O sedutor vira lesma gosmenta na alma... E ele mesmo morrerá sem se suportar...

Todo aquele que vive para esconder um dia não mais saberá o caminho de volta de seu próprio labirinto de enganos e ocultamentos...

Assim é a vida...

E não há oração, unção, mágica ou poder algum que possam mudar a natureza de tais coisas!

Bem-aventurado o que crê na verdade da realidade e na realidade da verdade!

O que passar disso..., é tentativa de fazer mágica na existência!...



Nele, que nunca nos mandou praticar mágica, pois Ele não acredita em mágica,

Caio

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Fraqueza de Deus


Boa parte do ateísmo contemporâneo baseia-se na objeção enunciada com muita força no passado por J. P. Sartre e retomada pelos seus discípulos: “Se Deus existe, eu não sou nada”.

Se existe um Deus onipotente, o que ainda sobra para mim?
Essa presença ao meu lado do poder absoluto torna irrisórias todas as minhas ações. Diante do infinito, todo o finito torna-se irrelevante.
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Há muitas maneiras de enunciar o argumento.

A objeção foi formulada desde a Idade Média, mas não conseguiu convencer. A resposta diz que Deus e o homem não se situam no mesmo plano, como duas liberdades em competição.

A resposta não convenceu porque durante séculos os teólogos debateram a questão da predestinação, isto é, da compatibilidade entre a liberdade de Deus todo-poderoso e a liberdade humana.

Assim fazendo, situaram no mesmo plano as duas liberdades. Se os teólogos – tomistas, dominicanos e jesuítas – tomaram essa posição durantes séculos, não é estranho que filósofos façam a mesma coisa. De qualquer maneira, a pessoa sente tantas vezes o conflito entre a
sua vontade, o seu desejo e o que diz que é a vontade de Deus, que a reação parece inevitável. Os sartreanos sustentam que, para ser livre, é necessário negar a existência de Deus. Infelizmente para eles, Deus não depende das negações ou das afirmações de Sartre.

A verdadeira resposta está na fraqueza de Deus. O nosso Deus é um Deus “escondido” – tema constante da tradição espiritual cristã.

É um Deus que se manifesta no meio da nuvem, que se faz
perceptível, mas não impõe a sua presença.

A liberdade consiste justamente nisto: diante do outro, a pessoa para, reconhece e aceita que exista. Abre espaço, acolhe. Longe de dominar, escuta e permite que o outro fale primeiro. Assim Deus suspende o poder de Deus.

Nenhuma evidência, nenhuma ameaça, nenhum constrangimento força nem obriga. Deus permite e deixa fazer. Deus respeita o outro na sua alteridade e permite, até mesmo, que o outro se destrua sem intervir. A liberdade de Deus consiste em permitir e ajudar a liberdade do menor dos seres humanos. A liberdade de Deus reprime o poder. Torna-se fraca para que possa manifestar-se a força humana.

O hino de Filipenses 2.6-11, núcleo da cristologia paulina, expressa essa fraqueza de Deus. Pois o aniquilamento de Jesus incluía o aniquilamento do Pai: "Esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de escravo, tomando a semelhança humana. E, achado em figura de homem, humilhou-se a foi obediente até a morte, e morte de cruz!” (Fl 2.7-8).

Deus escondeu o seu poder até a ponto de as autoridades de Israel não o reconhecerem. É desta maneira que Deus se dirige às pessoas: sem intimidação, sem poder, na dependência de seres humanos, entregando a própria vida nas mãos de criminosos. Quem dirá que dessa maneira Deus faz violência às pessoas?

Como comentou Levinas, o outro é o desafio da liberdade, a provocação que a desperta. Diante do outro há duas atitudes: examiná-lo para ver em que lê me poderia ser útil ou qual é a ameaça que representa para mim, ou então, perguntar-me o que eu poderia fazer para ajudá-lo.

A liberdade de Deus autolimita-se. Diante da sua criatura, Deus limita sua presença. Deus preferiu antes deixar que crucificassem o seu Filho a intervir para impedir tal justiça.Trata-se de fraqueza voluntária.

É verdade que durante muitos séculos, sobretudo na pregação popular, os pregadores apresentaram uma concepção bem diferente de Deus. Usaram temas e comportamentos da religião popular tradicional: medo diante do trovão, medo da seca e de cataclismos naturais – entendidos como castigos divinos –, medo das doenças recebidas também como castigos e assim por diante.

Era fácil despertar o temor a partir de idéias puramente pagãs ou supersticiosas. Essa pregação de terrorismo religioso podia dar resultados imediatos, levando milhares de pessoas aos sacramentos. A longo prazo, porém, destruíram as bases da credibilidade da Igreja. Hoje a maioria das pessoas deixaram de ter medo do trovão, não sendo mais motivo para temer a Deus, como foi no passado. Naquele tempo achou-se válido o método do temor, todavia hoje recolhe-se
os frutos dessa pastoral.

Pensou-se que os povos precisassem temer um Deus forte – e desprezariam um Deus fraco. Tais erros se pagam cedo ou tarde. Estamos pagando hoje esse preço.

Deus torna-se fraco porque ama. Quem mais ama é sempre mais fraco. Não será essa a grande característica das mulheres? Quase sempre amam mais, e, por isso, sofrem mais. Porém, nessa fraqueza consentida não estará a maior liberdade?

Nessa fraqueza a pessoa vence todo o egoísmo, todo o desejo de prevalecer, toda a preguiça de aceitar maiores desafios. Exige mais de si própria, vai mais longe, além das suas forças. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (João 15.13). Aí está também a expressão suprema da liberdade.

A fraqueza de Deus vai até a ponto de se tornar suplicante. O versículo predileto do saudoso teólogo latino-americano Juan Luís Segundo diz; “Eis que estou batendo na porta: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei na sua casa e cearei com ele e ele
comigo (Apocalipse 3.20).

Deus bate na porta e aguarda. Se não é atendido, afasta-se e continua o caminho. Somente entra se é convidado. Depende do convite da pessoa. Deus torna-se pedinte, suplicante.


José Comblin

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Como perder Jesus de vista no livro de Atos




Tente por um instante imaginar um mundo (e um cristianismo) em que o Novo Testamento consista exclusivamente nos quatro evangelhos – sua Bíblia e sua memória desconhecem os livros de Atos, Hebreus e Apocalipse e as cartas de Paulo, Pedro, Judas e João. Neste mundo imaginário conhecemos bastante sobre a vida, o caráter, os milagres e as palavras de Jesus de Nazaré. Sabemos com quem ele andava, quem o hostilizava, a quem ele distribuía tolerância e quem merecia sua impaciência. Ouvimos suas histórias, memorizamos seus ditados, trememos diante de suas exigências e somos continuamente desafiados pela sua vitalidade. Vemo-lo lavar os pés dos discípulos, comer com pecadores, abraçar leprosos, ter os pés massageados por prostitutas. Testemunhamos sua espiral voluntária em direção à morte e temos desconcertante indício de sua ressurreição.

Mas é só. Nada sabemos das aventuras de capa e espada de Atos, das austeras recomendações de Judas, das elaboradas explicações de Paulo, do novo céu de glória e da nova terra sem templo do Apocalipse.

A pergunta que faço, e que um número cada vez maior de cristãos se têm visto impelida a fazer, é: será possível ser cristão tomando o Jesus dos evangelhos – o Jesus de Nazaré narrado, morto e ressuscitado no testemunho dos evangelistas – por inteiramente suficiente? Será possível ser cristão (e ser igreja, seja lá o que isso for) sem abraçar necessariamente a teologia de Paulo e a administração eclesiástica de Atos?

Se sentimo-nos forçado a pensar assim é devido a uma convicção crescente, vertida gota a gota das mais inesperadas fontes, de que em dois mil anos de história o cristianismo têm, essencialmente, supervalorizado Paulo em detrimento de Jesus. Muitos de nós estamos familiarizados com a tese, popular em determinados círculos, de que Paulo propôs um cristianismo institucional que tem pouca relação com a vida e a originalidade de Jesus de Nazaré. Segundo essa teoria, o Apóstolo teria contribuído mais do que ninguém para desvirtuar o cristianismo simples e anárquico de Jesus, transformando-o em instituição e abrindo precedente para que nos milênios que se seguiram o cristianismo fosse mais conhecido por sua obsessão com a crença correta do que por sua pureza de coração; mais conhecido por sua mania em ter o primeiro lugar do que, como sonhara Jesus, em ser reconhecido pelo amor.

Paulo foi mal entendido; Jesus não foi sequer levado em conta.

Será verdade que Paulo construiu e por fim consagrou a imagem de um Jesus descarnado, glorioso mas distante da vida real, em tudo contradizendo o Jesus de carne e osso, vivo e vital, dos evangelhos? Minha posição mais ou menos estabelecida sobre o assunto é que, na história do cristianismo, Paulo foi mal entendido e Jesus de Nazaré não foi sequer levado em conta. As reflexões do Apóstolo foram moldadas à imagem de seus intérpretes e por fim cristalizadas em dogma, enquanto os desafios de Jesus permaneciam – e permanecem – virtualmente intocados, virtualmente inéditos.

Cresce em mim, além disso, a impressão de que a institucionalização e conseqüente mumificação do cristianismo histórico deve-se menos a uma interpretação [possivelmente equivocada] de Paulo do que à leitura tradicional que os cristãos imprimiram, desde provavelmente o segundo século, ao livro de Atos dos Apóstolos. Se é que acabamos, por assim dizer, perdendo Jesus de vista, isso aconteceu em algum momento da nossa leitura de Atos.

Por um lado, não deve ser à toa que levamos Atos tão a sério em nossa busca por orientação. Não temos, afinal de contas, registro mais importante da transição entre a vida terrena de Jesus e o que veio depois; entre o treinamento intensivo dos discípulos e a aplicação desse ensino na vida real; entre a ordem de fazer discípulos em todo o mundo e seu eventual cumprimento; entre o sonho messiânico de transformar o mundo e sua possível execução.

Se a postura e a mensagem do Jesus dos evangelhos são por um lado prescientemente pós-modernos e contracultura, os apuros dos apóstolos em Atos parecem estar muito mais próximos do que convencionamos associar à experiência e à essência da igreja. Nos evangelhos pode até parecer que Jesus demole as bases institucionais da religião, mas poucas páginas Novo Testamento adentro vemos Paulo fundando igrejas, apontando líderes, pregando de porta em porta e passando a sacolinha. E é em Atos e não nos evangelhos, dizem-me, que vemos o retrato da igreja e a prescrição do cristianismo como deveriam ser – então, Brabo, aguente o tranco.

A pergunta que quero me forçar a fazer é se existe em Atos algum traço do Jesus indomável que vejo com tanta clareza nos Evangelhos; e, caso exista, se será possível rastreá-lo, tanto tempo depois, no relato sinfônico das façanhas dos apóstolos. Haverá em Atos algo que faça jus ao rabi que curava no sábado e semeava bem-aventuranças e maravilhava dos pássaros e abraçava criancinhas e calava diante de reis?

O que torna essa pergunta e sua resposta ainda mais relevantes está na curiosa circunstância de que o autor do livro de Atos é quase certamente Lucas, autor de um dos evangelhos, e que ele mesmo parece ter visto um relato como continuação inevitável do outro. No primeiro verso do primeiro capítulo de seu livro o autor faz a famosa referência a um tratado anterior (o evangelho de Lucas), no qual relatara “as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar”. A implicação, naturalmente, é que os evangelhos registram apenas uma porção, a primeira, das atividades de Jesus na terra; o livro de Atos fica implícito, consiste na parte II: aquilo que Jesus continuou a fazer e a ensinar através de seus discípulos.

A posição oficial do próprio Lucas, portanto, é que existe apenas continuidade entre a vida e o exemplo de Jesus de Nazaré (como registrados nos evangelhos) e os primeiros passos do cristianismo (como registrados em Atos). Não apenas uma única história e uma única linha narrativa, mas um único protagonista, que liga sem interrupção a parábola do bom samaritano ao discurso de Paulo em Atenas.

Deve ser, então, possível rastrear Jesus de Nazaré no livro de Atos; no mínimo, não deve ser impossível tentar determinar de que forma ou sob qual disfarce, na opinião de Lucas, o Filho do Homem, o rabi da Galiléia, prosseguiu agindo e ensinando através dos discípulos que preparou.

Prevejo que não será tarefa fácil. Em primeiro lugar porque, dois mil anos depois, é por certo impossível ler um livro da Bíblia de forma isenta, inteiramente livre do peso de milênios de história e de interpretação. Cada verso, cada inflexão, cada dúvida e cada aresta foram devidamente explicados, desbastados e passados a ferro pela multidão de intérpretes que nos precederam. Mesmo quando tomo a decisão consciente de aproximar-me do texto sem qualquer preconceito, descubro que o preconceito faz parte de mim mesmo, é componente inseparável da minha própria capacidade de julgamento. A consagração do texto anulou-o; sua notoriedade esgotou-o todo significado, e não há palavra que possa livrar-me do corpo desta morte.

Em segundo lugar, há que se enfrentar o fato cru de que há em Atos pouquíssimas referências, em menção ou imitação, às atividades e palavras do rabi de Nazaré.

Muito já se falou sobre a ausência do Jesus histórico nas cartas de Paulo. Já foi observado que, se dependêssemos do testemunho de Paulo, não teríamos como saber que Jesus nasceu de uma virgem, ensinava através de parábolas e era companheiro de pecadores.

Paulo não menciona sequer uma frase de Jesus, um milagre, um evento importante que não seja sua morte e ressurreição.

Preciso confessar que essa ausência do maltrapilho de Nazaré me incomoda mais em Atos do que em Paulo. As cartas de Paulo são – como o nome diz – cartas, escritas todas elas com o intuito de abordar questões muito específicas diante de grupos muito específicos. Nenhuma delas foi escrita com a finalidade de apresentar a pessoa de Jesus ou a sua história para quem não o conhecesse ou nunca tivesse ouvido falar dele. Essa circunstância, por si só, deveria servir para explicar em grande parte a ausência de referências diretas à história e ao ensino de Jesus. Essas coisas, o apóstolo poderia pressupor, estavam sendo devidamente transmitidas em outro lugar; apresentar Jesus não é, definitivamente, o que o leva a escrever.

Em Atos, por outro lado, a coisa deveria ser diferente. Vemos aqui, em grande parte, Jesus sendo proposto e apresentado a gente que nunca ouviu falar dele – ou, em alguns casos, a gente que tinha dele informações duvidosas e pouco positivas. E, surpreendentemente, em nenhum lugar – em ato nenhum de nenhum apóstolo – encontramos referência às palavras, às histórias e ao modo de vida do Jesus dos evangelhos. Pedro jamais diz “sabem, fui discípulo de um rabi na Galiléia, um homem absolutamente notável que descobri mais tarde ser o messias. Estávamos um dia no meu barquinho quando ele contou uma parábola que nunca vou esquecer…”

Nada. Nem uma palavra. Nenhuma menção a Jesus de Nazaré que não seja com respeito à sua morte, sua ressurreição, ao fato de que tinha discípulos ou à promessa do Espírito Santo. Se Lucas não perdeu Jesus de vista quando escreveu seu segundo tratado, se os discípulos não perderam Jesus de vista quando se embriagaram com o Espírito Santo, se Paulo não perdeu Jesus de vista quando foi cegado pelo esplendor de Damasco; bem, o mesmo não pode ser dito de mim. Preciso saber se ele continua mesmo ali.
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Paulo Brabo

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Interpretando a Bíblia, Mas Olhando a Realidade


‘Interpretar a Bíblia sem olhar a realidade da vida é o mesmo que manter o sal fora da comida, a semente fora da terra, a luz debaixo da mesa; é como galho sem tronco, olhos sem cabeça, rio sem leito...

Pois a Bíblia não é o primeiro livro que Deus escreveu para nós, nem o mais importante. O primeiro livro é a Natureza, criada pela Palavra de Deus; são os fatos, os acontecimentos, a história, tudo o que existe e acontece na vida do povo; é a realidade que nos envolve. Deus quer comunicar-se conosco através da vida que simplesmente vivemos. Por meio dela, Ele nos transmite a sua mensagem de Amor e Justiça.

Mas, nós homens e mulheres de hoje, por causa dos nossos pecados de estimação, organizamos o mundo de tal maneira e criamos uma sociedade tão torta que já não é mais possível perceber claramente a Voz de Deus nesta vida que então vivemos. Por isso Deus escreveu para nós um segundo livro que é a Bíblia. O segundo livro não veio substituir o primeiro. A Bíblia não veio ocupar o lugar da vida. A Bíblia foi escrita para nos ajudar a entender melhor o sentido da vida e perceber a presença da Palavra de Deus dentro da nossa realidade.

Por isso, quem lê e estuda a Bíblia, mas não olha a realidade do nosso povo oprimido nem luta pela justiça e pela fraternidade é infiel à própria Palavra de Deus e não imita Jesus Cristo. Ele é semelhante aos fariseus que conheciam a Bíblia de cor, mas não a praticavam...’
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Carlos Mestres

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Etica e espiritualidade face a situações-limite de vida e de morte



Estamos em tempos de transversalidade dos discursos, buscando convergências nas diversidades, em benefício da qualidade humana, espiritual e cívica dos seres humanos.

Hoje temos consciência clara sobre o limite e o alcance da medicina e da lei com referência ao complexo problema dos doentes terminais e da morte. Pessoalmente estimo que essa questão, lógico, comporta dimensões científicas, técnicas e jurídicas mas também nos remete a questões de natureza cultural e filosófica: qual a imagem que temos do ser humano? Que visão projetamos da vida cuja compreensão mais profunda vem sendo elaborada no interior das ciências biológicas, da moderna cosmologia e de uma compreensão ampliada do do processo da evolução ascendente? Uma nova ótica provoca uma nova ética.

1. O cuidado: essência concreta do ser humano Sobre isso gostaria de refletir no sentido de levar avante a discussão com a eventual contribuição da filosofia, nomeadamente da ética. Gostaria de articular a reflexão ao redor do tema do cuidado, tão essencial à vida, especialmente à vida humana em seu limite extremo de doença e de morte.

A ética do cuidado é conatural aos médicos e enfermeiros e também aos promotores do direito e da justiça na sociedade. No meu livro Saber cuidar: ética do humano-compaixão pela Terra tentei vertebrar um pensamento que acolhesse essas questões e as aprofundasse no arco de uma visão mais arquitetônica, própria da filosofia e da ética. Parti de uma conhecida fábula de Higino, um filosófo escravo egípcio-romano, na aparece claramente que a essência do ser humano não reside tanto no espírito e na liberdade, quanto no cuidado.

O cuidado significa uma relação amorosa com a realidade. Importa um investimento de zelo, desvelo, solicitude, atenção e proteção para com aquilo que tem valor e interesse para nós. Tudo o que amamos tambem cuidamos e vice-versa. Pelo fato de sentirmo-nos envolvidos e compromeitos com o que cuidamos, cuidado comporta também preocupação e inquietação.

O cuidado constitui a plataforma real que possibilita as demais dimensões do humano emergirem. Sem ele não guardariam sua característica humana. Martin Heidegger em seu Ser e Tempo dedica alguns dos mais profundos parágrafos a essa visão do cuidado essencial, como a natureza concreta do ser humano no mundo com os outros. Devido à sua essencialidade, dizia Horácio, o poeta romano, “o cuidado nos acompanha como uma sombra ao largo de toda a vida”. Tudo aquilo que fizermos com cuidado significa uma força contra a entropia, contra o desgaste, pois prolongamos a vida e melhoramos as relações com a realidade.

A crise da cultura mundial reside na falta de cuidado, falta clamorosa no tratamento das crianças e dos idosos dos eco-sistemas, das relações sociais e de nossa própria profundidade. É o cuidado que salvará o amor, a vida e nosso esplendoroso planeta Terra.

Na Carta da Terra, documento elaborado ao longo de 8 anos, envolvendo as bases da sociedade e o melhor do pensamento ecológico, político e ético de 46 países e implicando mais de 200 mil pessoas, visando garantir o futuro do Planeta e da humanidade e recentemente acolhido pela UNESCO, nesta Carta, o eixo estruturador é a ética do cuidado. Para vocês da medicina e da enfermagem, essa assunção não significa nenhuma surpresa, pois, como disse e repito, o cuidado é a essência da atitude curativa dos operadores da saúde. Já no século passado emergia poderosamente essa perspectiva do cuidado com a famosa enfermeira inglesa Florence Nightingale. Ela deixou a Inglaterra e foi tratar, sob a ótica do cuidado, os soldados feridos na violenta guerra da Criméia. Em seis meses conseguiu reduzir de 42% a 2% a mortandade entre os soldados feridos. De volta organizou toda uma rede de hospitais que davam centralidade ao cuidado. Deu origem a uma corrente de pensamento e de ética na enfermagem, articulada ao redor do cuidado, hoje muito forte nos Estados Unidos e no mundo inteiro.

Particularmente a partir dos anos 70 começou a se discutir a ética da enfermagem utilizando a categoria cuidado . Aí aparecia o cuidado como a aura benfazeja que deve impregnar a investigação científica e a utilização do aparato tecnológico. Estes não devem ser subestimados nem relativizados em nome do cuidado. Antes, devem servir à atitude de cuidado pois só então servem à integralidade dos pacientes a serem curados ou acompanhados em sua grande travessia da morte. Cuidado (âmbito mais da enfermagem) e cura (âmbito da medicina) devem andar de mão dadas, pois representam dois momentos simultâneos de um mesmo processo. Frequentemente somos confrontados com a situação penosa de doentes terminais. A medicina contemporânea tem condições de prolongar por muito tempo a vida, mesmo no âmbito de situações-limite e para além de qualquer espectativa de reversibilidade. Há situações que comportam grande dor dos pacientes e gastos altíssimos para a família que quase vai a falência no afã de garantir o tratamento de seus familiares terminais. Como atuar em casos deste gênero? Prolongar a todo custo a vida ou deixar que ela siga o seu curso rumo à morte?

Tive a oportunidade de acompanhar a grande travessia de uma das mais brilhantes inteligências brasileiras e cristãs, o Dr. Alceu Amroso Lima (Tristão de Athaide) no hospital Santa Teresa de Petrópolis. Ele foi durante toda a vida um paladino da liberdade, especialmente nos tempos de chumbo da ditadura militar. Com seus mais de 90 anos e sob muitos achaques, padecia ligado a muitos aparelhos e a tubos. Num dado momento de distração dos enfermeiros, arrancou tudo e se libertou. Criou-se um impasse para cuja solução fui convidado a opinar. Tratava-se de ligar ou não ligar aqueles aparelhos todos para permitir ao Dr. Alceu prolongar por um pouco mais a vida? Suspeitando do impasse, ele me sussurou ao ouvido: “eu lutei a vida inteira pela liberdade e não quero morrer sob ferros como um escravo, isso não é digno, deixem-se morrer em paz”.

Foi o que eu disse ao corpo médico: “respeitem o curso natural da vida do Dr. Alceu, porque a vida é mortal e ela precisa ser respeitada em sua qualidade de mortal. Ademais, o Dr. Alceu é um cristão profundamente convicto na vida eterna; a doença não lhe tira a vida, ele a entrega Aquele de quem a recebeu, a Deus; deixem-no morrer como quer, em plena liberdade”. E assim foi feito. E morreu com a aura de um liberto. Essa atitude significa também cuidado para com a natureza da vida, em sua finitude e mortalidade.

2.Uma compreensão mais complexa do ser humanoEssas pequenas referências nos suscitam a questão que gostaria de rapidamente abordar no contexto das duas conferências aqui feitas: qual a compreensão do ser humano que preside nossas práticas terapêuticas? Façamos um ensaio de reflexão filosófica.

Antes de mais nada importa enfatizar que o ser humano constitui uma totalidade extremamente complexa. Quando dizemos “totalidade” significa que nele não existem partes justapostas. Tudo nele se encontra articulado formando um todo orgânico. Quando dizemos “complexa” significa que o ser humano não é simples, mas a sinfonia de múltiplas dimensões que coexistem e se interpenetram. Dentre muitas discernimos três dimensões fundamentais do único ser humano, dimensões que ocorrem sempre juntas e articuladas entre si: a exterioridade (corpo), a interioridade (mente) e a profundidade (espírito).

Essa consideração holística nos propicia uma visão mais integrada que beneficia a medicina e a enfermagem em sua missão de cura...

A exterioridade do ser humano é tudo o que diz respeito ao conjunto de suas relações com o universo, com a natureza, com a sociedade, com os outros e com sua própria realidade concreta. Ela ganha densidade especial através do cuidado, já referido anteriormente. Sem o cuidado eles não sobrevivem nem se desenvolvem. Por isso importa ter cuidado para com o ar que respiramos, com os alimentos que consumimos/comungamos,com a água que bebemos,com a roupas que vestimos e com as energias que vitalizam nossa corporeidade. Normalmente se chama essa dimensão de corpo. Mas bem entendido: corpo como o ser humano todo inteiro, vivo, dotado de inteligência, de sentimento,de compaixão, de amor e de êxtase enquanto se relaciona para fora e para além de si mesmo.

A interioridade do ser humano vem constituída por tudo o que é voltado para dentro e diz respeito ao universo interior, tão complexo quanto ao universo exterior. A interioridade humana se constela ao redor do consciente e do inconsciente pessoal e coletivo. Por isso não é jamais vazia mas habitada por instintos, paixões, imagens poderosas, arquétipos ancestrais e principalmente pelo desejo. O desejo constitui, possivelmente, a estrutura básica da interioridade humana. Sua dinâmica é ilimitada. Como seres desejantes, nós humanos não desejamos apenas isso e aquilo. Desejamos tudo e o todo. O obscuro e permanente objeto do desejo é o Ser em sua totalidade. Tentação permanente consiste em identificar o ser com alguma de suas manifestações. Quando isso ocorre, surge a fetichização que é a ilusória identificação da parte com o todo, do absoluto com o relativo. O efeito é a frustração do desejo e o sentimento de irrealização. O ser humano precisa sempre cuidar e orientar seu desejo para que, ao passar pelos vários objetos de sua realização, não perca a memória bemaventurada do único grande objeto que o faz realmente descansar: o Ser, a Totalidade e a Realidade fontal. A interioridade é chamada também de mente humana. Novamente mente , bem entendida, como a totalidade do ser humano voltado para dentro, captando seu dinamismo interior e também as ressonâncias que o mundo da exterioridade provoca dentro dele.

Por fim, o ser humano possui profundidade. Ele possui a capacidade de captar o que está além das aparências, daquilo que se vê, se escuta, se pensa e se ama com os sentidos da exterioridade e da interioridade. Ele apreende o outro lado das coisas, sua profundidade. As coisas todas não são apenas coisas. São símbolos e metáforas de outra realidade que está sempre além e que nos remete a um nível cada vez mais profundo. Assim a montanha não é apenas montanha. Ela traduz o que significa majestade. O mar, a grandiosidade. O céu estrelado, a infinitude. Os olhos profundos de uma criança, o mistério da vida humana.

O ser humano coloca questões fundamentais que estão sempre presentes em sua agenda: de onde viemos, para onde vamos, como devemos viver? Que significa a doença e finalmente a morte? Como preservar o mundo que nos sustenta? Quem somos nós e qual a nossa função no conjunto dos seres? Que podemos esperar e qual nome dar ao mistério que subjaz a todo o universo e que reluz em cada coisa à nossa volta? Ao balbuciar respostas a estas questões vitais captamos valores e significados e não apenas constatamos fatos e enumeramos acontecimentos.

Na verdade, o que definitivamente conta não são as coisas que nos acontecem. Mas o que elas significam para a nossa vida e que experiências e visões novas nos propiciam. As coisas, então, passam a ter caráter simbólico e sacramental: nos recordam o vivido, nos reenviam a questões mais globais e, a partir daí, alimentam nossa profundidade.

Colocar questões fundamentais e captar a profundidade do mundo, de si mesmo e de cada coisa constitui o que se chamou de espírito. Espírito não é uma parte do ser humano. É aquele momento pleno de nossa totalidade consciente, vivida e sentida dentro de outra totalidade maior que nos envolve e nos ultrapassada: o universo das coisas, das energias, das pessoas, das produções histórico-socias e culturais. Pelo espírito captamos o todo e a nós mesmos como parte e parcela deste todo.

Mais ainda. O espírito nos permite fazer uma experiência de não-dualidade. “Tu és isso tudo” dizem os Upanishads da India, referindo-se ao universo. Ou “tu és o todo” dizem os yogis. “O Reino de Deus está dentro de vós” proclama Jesus. Estas afirmações nos remetem a uma experiência vivida e não a uma doutrina. A experiência é de que estamos ligados e re-ligados uns aos outros e todos à totalidade e à sua Fonte Originante. Uma fio de energia, de vida e de sentido perpassa a todos os seres, constituindo-os em cosmos e não em caos, em sinfonia e não disfonia.

A planta não está apenas diante de mim. Ela está também dentro de mim, como ressonância, símbolo e valor. Há em mim uma dimensão planta, bem como uma dimensão montanha, uma dimensão animal, e uma dimensão Deus. Sentir-se espírito não consiste em saber estas coisas. Mas, em vivenciá-las e fazer delas conteúdo de experiência. Quando isso ocorre, emerge a não-dualidade e a profunda sintonia com todas as coisas. A partir da experiência tudo se transfigura. Tudo vem carregado de veneração e sacralidade. Não estamos mais sós, centrados em nosso antropocentrismo ou em nossa visão utilitarista das coisas. Fazemos parte da imensa comunidade cósmica. Sentimo-nos mergulhados no fluxo de energia e de vida que empapa todo o universo e a natureza à nossa volta.

3. A morte como inteligente invenção da vidaÉ nesse contexto que importa colocar o tema da morte. O sentido que damos a vida é o sentido que damos a morte e o sentido que damos à morte é o sentido que damos à vida. A morte pertence a vida e a vida pertence ao mistério, àquele processo misterioso de auto-organização da matéria que permite a vida eclodir, em sua imensa diversidade.
A vida, como todas as coisas, é mortal. Quando alguém é concebido já é suficientemente velho pra morrer. Começa a morrer devagar, em prestações e vai morrendo cada dia um pouco até acabar de morrer.

Então a morte não vem no fim da vida, a morte está no coração da vida. Acolher a morte como parte da vida, significa tratar diferentemente a vida, acolher sua finitude e suas limitações, sem amargura e ressentimento, mas com jovialidade e sentido de realidade. Numa perspectiva evolutiva e holística a morte é considerada uma sábia invenção da própria vida, para poder continuar num outro nivel mais alto e realizar seu propósito de expansão do cuidado, do amor e da liberdade.

A morte não é entendida como um fracasso ou como uma dissolução mas como um dos momentos da própria vida, tal o momento de nascer, o momento de ficar adulto, o momento das grandes decisões, o momento de casar e outros. Assim a morte significa um momento alquímico de uma grande transformação, da grande travessia para um novo estado de consciência e de realização do projeto infinito que é cada ser humano. Na metáfora brilhante do Dr. Paulo César, a morte deixa de ser “fantasma escondido debaixo da cama” para se transformar na irmã que vem nos tomar pela mão e nos conduzir para uma forma mais complexa e mais alta de vida. Assim pensou e viveu S.Francisco de Assis que morreu literalmente cantando e saudando a irmã morte.

Essa concepção de vida e de morte foi historicamente trabalhada pelas religiões. Elas apresentam um sentido derradeiro para o ser humano, uma cura total de sua ânsia de infinito e de vontade de viver. Para um médico humanista, tais concepções devem ser tomadas a sério, porque elas atuam poderosamente sobre os pacientes no sentido de integrarem os sofrimentos e os medos face ao imponderável da grande travessia. Eles querem ser acompanhados pela presença humana, calorosa e solidária e não abandonados nas UTIs entregues à parafernália tecnológica. Assim como entramos no mundo cercados pelo carinho humano, queremos também nos despedir dele circundados dos cuidados e da benquerença dos familiares e dos amigos.

4. Atitude ética básica face a situações terminaisPara concluir minhas reflexões, gostaria de apresentar alguns pontos acerca das atitudes a se tomar face a doentes terminais.
Como somos responsáveis pela nossa vida assim devemos ser responsáveis também pela nossa morte.

Como temos direito a uma vida digna da mesma forma temos direito a uma morte digna. Esse direito muitas vezes nos é negado pelo fato de sermos obrigados a ficar presos a aparelhos e medicamentos que nos prolongam a vida no sentido meramente vegetativo, o que é insuficiente para a integralidade da vida minimamente humana.

A vida é o melhor fruto do universo como auto- organização da matéria e, numa perspectiva espiritual, o maior dom de Deus. Mesmo assim, a vida cái sob a responsabilidade dos seres humanos. Somos responsáveis pelo comêco da vida e também responsáveis pelo fim da vida.
Outrora, a teologia moral cristã condenava o planejamento familiar, pois imaginava, erroneamente, que era uma intromissão no desígnio divino de colocar vidas no mundo. Hoje, todas as igrejas entendem que Deus colocou à responsabilidade do ser humano o começo da vida. Também o fim da vida foi entregue à sua responsabilidade (não à sua arbitrariedade).

Não cabe ao estado assumir a função de decidir quando uma vida dever prolongada ou não. O eugenismo nazista nos alerta contra essa tentação. Cabe ao próprio ser humano, mortalmente doente, decidir de forma qualificada sobre o prolongamento ou não de seu estado irreversível. Na sua impossibilidade ocupam o seu lugar os familiares e os médicos. Isso implica:

- O médico fará tudo para curar o paciente. Não significa que use todos os métodos, meios artificiais e técnicos para prostergar a morte.

- Uma terapia só tem sentido quado se ordena à reabilitação e à restituição das funções essenciais e vitais e não simplesmente garantir uma vida vegetativa.

- O cuidado pelo doente não deve ser apenas coisa dos médicos e enfermeiros, mas também dos familiares, dos conselheiros espirituais (sacerdotes, pastores, rabinos, pais de santo etc), dos amigos próximos.

- Devem ser tomadas em consideração as crenças religiosas e espirituais do paciente com referência ao sentido da vida e da morte. Caso contrário lhe fazemos violência, sempre, entretanto, no pressuposto de que a vida é o bem supremo em nome do qual nenhuma visão, ideologia ou convicção religiosa contrária, possa prevalecer. Para o cristianismo - a religião das maiorias de nosso povo - a morte não é um fim puro e simples, mas um peregrinar para a Fonte originária de toda vida. Morrendo, acabamos de nascer. Não vivemos para morrer, mas morremos para ressuscitar e para viver mais e melhor. Destarte a morte perde seu caráter de brutal interrupção do ciclo da vida para se transfigurar numa passagem benaventurada para a plenitude da vida.

- Morrer é fazer uma despedida da vida, de forma agradecida, por aquilo que ela nos propiciou. Morrer é então fechar os olhos para ver melhor o sentido do universo e do Mistério que o circunda e perpassa.

- Tais visões ajudam a humanizar a morte e a desdramatizar os casos terminais, pois a vida e a morte são assimiladas num horizonte maior e transcendente.


Leonardo Boff

domingo, 16 de maio de 2010

O DIABO NÃO É DE CARNE E SANGUE – MAS SEUS AGENTES SÃO.





Minha primeira experiência com demônios foi aos 13 anos. A empregada de uma namoradinha era possessa, e, uma vez, caiu e serpenteou ante nossos olhos estupefatos, enquanto produzia um chacoalhar de cascavel e emitia sons inumanos. E não havia dúvidas: era demônio. O reverendo Antonio Elias o repreendeu; mas eu fiquei atormentado com a experiência um bom tempo.

Ora, eu nascera numa casa na qual doença mental não era tratada com alienação. Havia loucos de vários tipos na casa de minha avó, desde sempre — pessoa que meu avô tomara como afilhadas, algumas delas nitidamente descompensadas ou surtadas mesmo. Isto sem falar no meu amado tio Lucilo, mano de minha mãe, que era esquizofrênico; e que viveu como tal a vida inteira, até a morte.

Assim, de algum modo, em meu coração eu sabia que o que acontecera com a empregada da Marcinha era possessão.

Depois esqueci de tudo, até o dia em que estava com uma menina dentro de um carro no antigo Píer de Ipanema, 1972, quando ela gritou: “O Anticristo nasceu! Aleluia!” — e disse isto com os olhos inflamados de alegria do inferno.

Ora, eu era doido, mas nem tanto. Larguei a moça no carro e fui embora a pé...

Dali em diante houve uma sucessão de episódios do mesmo tipo, em seqüência; pois, aonde eu ia alguém incorporava e vinha com “papos do diabo” para cima de mim. Até que eu mesmo, em julho de 1973, na noite de minha conversão, fiquei sob sujeição demoníaca; pois, tinha consciência de tudo à minha volta, mas, de fato, apenas assistia, posto que algo dominava todos os meus comandos, fazendo de um fantoche daquela força perversa que desejava me matar.

Daquele tempo em diante, embora tenha ficado amedrontado de inicio, logo me vi na linha de frente daqueles enfrentamentos; os quais passaram a ser diários, e, pelos quais, não apenas aprendi o que é uma possessão, uma sujeição demoníaca, uma opressão, ou quais e como são os estados híbridos, quando a possessão gera uma disfunção psíquica permanente (uma espécie de psiquismo de possesso); ou quando em razão de uma disfunção psíquica acompanhada de ódio ou baixa auto-estima, a pessoa evoluiu da doença mental para um estado de possessão simultânea.

Ora, isto sem falar nos inúmeros casos de doença mental que se fazem “condicionar” pela aparência aprendida pelo doente de como seria se manifestar como um possesso (que em geral são os “casos” de demônio que se vê nas “igrejas” e na tevê).

Na realidade fui aprendendo as sutilezas e as filigranas que separam um estado do outro; e, assim, pela Graça, fui discernindo como ajudar no caso de possessos, no caso de doentes mentais sofrendo de uma obsessão demoníaca; bem como fui aprendendo a perceber os “casos híbridos” e os casos da doença mental propriamente dita.

Entretanto, demorou um pouco mais para que eu identificasse o homem-diabo. Sim! Pois meu senso de humanidade e até de humanismo, me impossibilitavam de ver que o ocorrido a Judas é um fenômeno muito mais presente no mundo do que as pessoas acreditam.

Sobre o tema do Diabo Humano, escrevi faz uns poucos anos o seguinte texto aqui no site:
Jesus disse que viu Satanás caindo do céu. Ora, isto aconteceu enquanto os 70 discípulos enviados por Ele para pregar o Evangelho, curar os doentes, e anunciar o reino de Deus — iam de cidade em cidade, apenas levando quase-nada além de si - mesmos, porém inteiros de alegria e fé.

Paulo diz que na Cruz Jesus “despojou os principados e potestades espirituais, triunfando deles...” Já o Apocalipse nos diz que chegaria uma hora na qual Satanás seria lançado na Terra... Então se diz: “Ai da Terra e dos que nela habitam!”.

Pessoalmente creio que estamos vivendo existencial, psicológica, tecnológica, política, econômica, ecológica e espiritualmente — em dias apocalípticos!

Isto porque, além de todas as evidências esmagadoras que nos cercam como “fato-de-morte”, e que hoje são afirmadas não por profetas e videntes, mas por cientistas de todas as áreas —, temos algo mais sério ainda em curso; e que nenhuma ciência parece perceber a gravidade de morte que ela trás consigo.

Escrevendo a Timóteo, na segunda carta, Paulo diz no capítulo 3 que nos “últimos dias” os homens, para além de qualquer outra coisa, perderiam o afeto natural. E afirma que a morte da afetividade faria perecer com ela a reverência e a honra a pai e mãe; o que traria à reboque um estado de desafetividade que acabaria por produzir uma sociedade global feita de homens e mulheres implacáveis, egoístas, narcisistas, amantes apenas de si mesmos, e incapazes de aprender-apreendendo a verdade no íntimo; o que gestaria almas em crescente estado de auto-indulgência e uma quase total incapacidade de amar.

Ora, assim como em Jesus vai-se de glória em glória até a estatura do varão perfeito; no diabo se vai de desfiguração em desfiguração até ficarmos a cara de Satanás.
Tudo isto combina com o que Jesus disse ao se referir a estes “dias”; pois, Ele nos disse que “naqueles dias os homens odiariam, trairiam, e matariam uns aos outros...”; e afirmou que os “inimigos do homem seriam os de sua própria casa”; completando com a afirmação que diz que “por se multiplicar a iniqüidade”, o amor se esfriaria “de quase todos”.
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Assim, com o diabo caído na Terra e com fome de morte; e com os homens se tornando semelhantes a ele e cada vez mais dês-semelhantes de Deus — o futuro dos humanos é sombrio!
Na realidade, como não se pode estudar as ações do diabo na Terra (posto que o próprio diabo está limitado ao “fornecimento” de material espiritual, moral e cultural que a humanidade lhe oferece) — o que fica visível aos olhos não é o diabo no homem, mas sim o homem no diabo.
Sim, porque de fato o homem está virando diabo!

Cada vez mais o melhor modo de saber como é o diabo é olhando a humanidade. Isto porque o diabo (diabulos) é aquele que divide; e Satanás é aquele que se opõe; ou seja: é o adversário.

Ora, olhando para qualquer lugar da Terra e observando os humanos, tem-se que admitir que a humanidade existe cada vez mais em razão das divisões e das guerras de todas as formas e maneiras. Vivemos numa sociedade dividida e na qual o outro é o inimigo; e isto indo da religião, passando pelas relações humanas em geral (especialmente as que envolvem sexo, dinheiro e poder), e chegando ao mercado de trabalho; pois, o concorrente já nem mesmo tem que ser vencido; de fato ele tem que ser aniquilado.

Além disso, a morte da afetividade, do respeito aos mais velhos, da reverência aos pais, do amor dos pais pelos filhos, da fidelidade, da gentileza, das educações mais banais, da solidariedade, da honestidade, da dignidade pessoal, do respeito pela existência de qualquer que seja o próximo — foi o poder-ausência que criou essa humanidade da qual somos parte; e que é feita de diabos, quase em sua totalidade.

O espírito do diabo está tão presente e imanente na maioria das consciências humanas (e até naquilo que entre nós se chama de Direito, Justiça e Crença), que já não se deve praticar qualquer tipo de “batalha espiritual abstrata”, posto que os demônios estão andando ao nosso lado todos os dias, em todos os lugares; e não são espíritos invisíveis, mas cobertos de carne, pele e ossos...; e muitas vezes travestidos até de “cristãos”.

A tragédia “destes últimos dias” é que a humanidade vai perdendo a “imagem e semelhança de Deus”; e, dia a dia, vai se tornando mais e mais parecida com o próprio diabo.

Ora, isto não é algo que deve ser dito apenas aos distantes e diferentes... “de nós”. Não! Isto deve ser dito a nós mesmos; e dentro de nossas próprias casas, famílias, igrejas e governos; e também a cada forma de expressão humana que nos cerca; pois, em quase todas elas, vemos sutilmente os humanos ficando a cara do diabo; e isto sem que o percebamos.

Basta ver o que existe em você. Sim, procure por amor, perdão, graça, misericórdia, compaixão, reverência, gentileza, bondade, alegria simples, e também pela fé que opera pelo amor —; sim, dentro de seu coração busque tais coisas; e, não achando tais coisas enraizadas em você, olhe para os céus e peça misericórdia a Deus; e isto a fim de que você e eu não sejamos tragados pelo bafo do inferno que seca a umidade do amor no chão da alma humana.

Assim, o que disse há dois anos, desejo repetir hoje, pois, é-me impossível não ver as ações malignas e sutis do diabo — usando o diabo-crente; o crente-diabo; o pobre-diabo; e o crente-diabo-crente.

Sobretudo, vejo esse diabo-humano se manifestando como fomentador de ódio, intriga, invejas, suspeitas, e muita e muita infâmia.

De fato, se não nos dermos conta disso, mas, ao contrário, se tratarmos tais coisas com “inocência”, todos nós seremos tragados para dentro da fraternidade do diabo-humano, a qual é feita de mentira, engano e sentimentos afiliados ao ódio e ao ressentimento.

Nos últimos dois meses (como fazia tempo não sentia e via), tenho percebido forte ação e ataque do diabo. Para mim, entretanto, todos esses ataques espirituais ou humanos (porém carregados da mesma energia de maldade), são o que a minha mulher chama de “o estrebuchar do rabo da lagartixa morta”. É reflexo nervoso das trevas ante a constatação de que não brincaremos com nenhum das diversões do diabo: ódio, amargura, ressentimento, desconfiança, infâmia, mentira, e toda sorte de dissimulação e engano.
Assim, digo: o pior diabo é o diabo-humano; pois, o diabo-diabo é apenas o diabo, mas o diabo-humano é gente agindo e sendo como o diabo entre os humanos.

Neste caso, é deixar, como Jesus deixou... Nós, entretanto, que temos ou que venhamos a ter este discernimento, não podemos nos tornar sócios inocentes desse diabo que se faz homem na maldade dos humanos desumanizados.

Lembre isto hoje, amanhã e sempre!

Nele, que nos disse como seria..., a fim de que não nos tornássemos o que não fomos criados para ser,

Caio